Sabemos que em uma organização, o que une as pessoas é o mecanismo de troca. No método da constelação sistêmica (sobre o qual falamos NESTE POST), fala-se do princípio do equilíbrio entre o dar e o receber.
Uma pessoa que oferece seu trabalho, por exemplo, em troca ela recebe outras coisas: oportunidade de realizar um trabalho, aprendizado, desenvolvimento pessoal e profissional, realização de um propósito; segurança financeira, dignidade de prover a família, poder sair de férias, entre outros benefícios. O que se vê, entretanto, na maioria dos casos, é um desequilíbrio nessa relação e, com ele, conflitos e sofrimentos.
Eles só queriam fazer um churrasco de final de ano
Tempos atrás, recebi um convite para ajudar uma empresa familiar. O que me espantou mais foi que a maior expectativa dos proprietários era poder ter um evento de comemoração agradável com seus funcionários no final do ano. Eles relataram que a vontade inicial era eliminar todos eles (já que a demissão era uma saída custosa, além de não ser uma solução duradoura). Apesar de estranho, o objetivo final revelava sintomas muito claros: uma péssima relação e um péssimo clima entre a diretoria e a equipe operacional.
Por um lado, a diretoria se sentia refém daqueles funcionários sem comprometimento, que faltavam quando queriam (geralmente nas segundas, nos dias pertos dos feriados e nos outros, quando marcavam compromissos pessoais como tirar carta, resolver problemas de documentação no Poupa-tempo, procurar um imóvel para alugar, entre vários outros motivos pessoais).
Sua operação e entrega ao cliente ficava comprometida com essas posturas e todas as tentativas para diminuir as faltas, atrasos e pouca produtividade não tinham gerado resultados satisfatórios. Punições como advertências, impactos negativos no salário variável, ameaças de demissão, conversas com a diretoria, com o líder imediato, nada funcionava. Por outro lado, a equipe operacional sentia que a diretoria estava distante, como se não se importasse.
São em casos como este em que a constelação sistêmica age de forma profunda para resgatar um equilíbrio e iniciar um novo movimento nas relações internas da organização.
Constelando as relações
Nosso trabalho foi uma consultoria sistêmica para transformar uma cultura já sedimentada e criar uma gestão mais humanizada. O propósito era transformar funcionários em colaboradores e nosso trabalho por lá durou aproximadamente um ano.
Entre todas as constelações que fizemos, uma foi muito marcante.
Toda a diretoria/família que trabalhava na empresa foi convidada a participar. Criei dois campos imaginários no qual, sem verbalizar aos participantes, identifiquei como o campo da diretoria e o campo do funcionários.
Na constelação sistêmica trabalha-se com o campo. Uma espécie de tecido invisível do qual o sistema faz parte e que contém a memória que transcende o tempo e o espaço. Através do campo é possível acessar as informações daquele sistema e com isso ajudar a diagnosticar e harmonizer o que está em desequilíbrio. Na linguagem de Jung podemos dizer que é uma espécie de inconsciente coletivo.
Pedi para que os quatro participantes escolhessem um lado na sala. (sem saber quais eram). O fundador e o mais novo que era identificado com o pai foram para o lado da diretoria e a fundadora e o filho mais velho escolheram o lado dos colaboradores. E, por fim, pedi para que o filho do meio representasse a própria empresa e escolhesse um lugar que fosse melhor. Ele ficou entre os dois – bem no meio.
Após os representantes escolherem o campo, eles foram convidados e relatar sensações e sentimentos daquele lugar e, sem saber, eles contaram exatamente como era fazer parte da de cada lado. O representante da empresa, por sua vez, dizia: “estou incomodado”, “eu gostaria que eles estivessem juntos, unidos”. Depois eu pedi para se olharem, sentirem a conexão e repetir algumas “frases de solução”, como “agora eu te vejo”,”muito obrigado”, “eu sinto muito”, entre outras. A ambiente foi tomado pela emoção do fundador e por um novo clima se estabelecia naquela conexão.
Ao final, foi pedido para seguirem naturalmente um movimento e eles formaram um círculo ao redor da empresa. No início, ficaram muito perto, o que incomodou a empresa, mas depois se afastaram um pouco, ainda em círculo, criando uma imagem final harmônica. Além de resgatar o elo perdido entre diretoria e equipe, eles puderam olhar para a empresa e esta se sentiu bem mais forte.
Em casos quando a empresa não é vista com foco e propósito, muitos conflitos podem aparecer nas relações, principalmente quando os princípios de pertinência, ordem e equilíbrio não são respeitados. Se os donos não reconhecem, agradecem e cuidam das pessoas que trabalham na sua empresa, a probabilidade do não comprometimento, assim como alto absenteismo (faltas) e turn over (rotatividade de pessoas na empresa) é mais alta.
No caso dessa empresa, não só eles comemoraram juntos no final do ano, como fizeram um encontro com direito a placas de reconhecimento, destaques e compromissos para um futuro melhor.
A satisfação foi imensa, como vocês podem imaginar, e tive a certeza de que é possível reconstruir as mais difíceis relações através da empatia, do afeto e do olhar sistêmico.
Se você deseja saber mais sobre como resolver conflitos na sua empresa através da Constelação Sistêmica, entre em contato!