A justiça à luz da Constelação Sistêmica - Elos 360
25 de julho de 2016 monica santos

A justiça à luz da Constelação Sistêmica

Sem sombras de dúvida, estamos vivendo uma profunda crise moral que se alastra como um câncer maligno no seio da nossa sociedade. A anorexia ética, tem provocado tanto sofrimento ao nosso organismo social, que cada vez mais, presenciamos os gritos inúteis de indignação e revolta frente à frágil justiça dos homens.

Filha da ética, a justiça pode ser entendida por diversas formas, mas em essência, trata-se da busca de um equilíbrio que mantêm sustentável a convivência harmoniosa em sociedade. Essa busca de equilíbrio, por sua vez, é um dos princípios sistêmicos de uma postura e metodologia científica chamada Constelação Sistêmica, criada pelo terapeuta e filósofo alemão chamado Bert Hellinger. Mas, como essa postura sistêmica enxerga a justiça e como ela pode contribuir para o bem comum?

A Constelação Sistêmica, parte-se do pressuposto que somos sistemas vivos pertencentes e interdependentes à outros sistemas vivos, sendo a família, o sistema mais importante, responsável e influenciador da nossa vida. Essa abordagem sistêmica, contra-mão do método racionalista clássico de Descartes, é resultado de uma pesquisa científica proveniente da observação e estudo de casos familiares que mostrou a existência de 3 princípios essenciais que regem as relações dentro de um sistema vivo: o pertencimento; a ordem e o equilíbrio.

Esses princípios foram chamados por Hellinger de “as ordens do Amor, uma vez que, acredita que o mesmo é o maior propósito da vida. Hellinger descobriu, que existe um “amor maior” maduro e regido por uma  “grande consciência” e um “amor menor” inconsciente e infantil que nos leva a repetir os padrões geracionais do sistema original. “Por amor, as pessoas “escolhem” a repetição que leva ao sofrimento e são esses princípios, forças dinâmicas, articuladas e invisíveis que agem e influenciam nossas escolhas e, consequentemente, nossas relações e futuro.

Como não conseguimos enxergá-las, sentimos apenas os efeitos desses princípios através dos campos mórficos, uma espécie de campo de memória transgeracional que revela informações ocultas e influencia o sistema através da ressônancia. Rupert Sheldrake, o físico pesquisador chamou a transmissão dessas regiões de influência que se estendem no espaço e tempo de ressonância mórfica.

Dessa forma, a Constelação Sistêmica, não só contribui com o diagnóstico das relações, trazendo informações ocultas do sistema para à luz da grande consciência, como, também, possibilita a cura pela ressonância, incluindo os excluídos e restabelecendo a ordem e o equilíbrio perdido.

O propósito da Constelação Sistêmica Familiar e organizacional é reestabeler o fluxo harmonioso das relações do sistema como um todo. O que é justo para o sistema familiar, por exemplo, nem sempre é justo para o membro da família.

Os sintomas, sejam eles sociais ou pessoais, são vistos como uma forma de compensação e funcionam como indicadores da exclusão, da desordem e da falta de harmonia desses princípios atemporais e universais. Isso significa, por exemplos, que quando uma geração desrespeita alguns desses princípios, a geração seguinte pode “pagar o preço” para reestabelecer a harmonia perdida. Essa justiça sistêmica só pode ser vista e compreendida através de um novo paradigma, uma vez que o modelo mental vigente, cartesiano, linear e simplista, é incapaz de processar. Somente uma visão sistêmica, complexa e fenomenológica é capaz de compreender a imensidão e a força dos invisíveis emaranhados que se desenrolam e enrolam em gerações em gerações, recriando destinos e distanciando a possibilidade de um futuro diferente.

Um exemplo comum do desrespeito ao princípio da pertinência, é a exclusão de um membro da família, que pode ser vista no esquecimento, no julgamento e ou na não convivência com alguém. Esse ato, contrário ao princípio da pertinência,  pode provocar um sofrimento futuro através da identificação do excluído. Um caso muito comum é quando uma mãe se separa de um pai e o “exclui” da vida do filho, julgando e maldizendo esse pai. Esse filho, por sua vez, em lealdade inconsciente ao pai e em busca de “justiça” por sua inclusão ao sistema, se identifica com o pai excluído, se tornando parecido com ele. Percebe-se que para o sistema, não se faz juízo de valor, todos tem o direito de pertencer e tem o seu valor no sistema. Sem o pai, o filho não estaria vivo. Na abordagem sistêmica, aquele pai, que poderia ser alcoólatra, ladrão, etc, é o melhor pai para aquele filho e o resgate do fluxo harmonioso desse sistema só acontece com a inclusão, honra e respeito pelo mesmo.

O segundo princípio sistêmico se refere a ordem – um conjunto de regras que governam o comportamento e dá forma aos papéis que são desempenhados no grupo. Até mesmo no caos existe uma ordem inquestionável! A abordagem sistêmica vê o primeiro sempre como o primeiro, assim como na matemática, primeiro vem o um, depois vem o dois e assim por diante. Essa ordem importa, por exemplo, no caso dos filhos – cada um tem o seu papel e seu lugar enquanto, primogênito, ou o segundo ou o caçula. Um outro exemplo acontece nos casamentos, pelo sistema não existe ex-marido ou ex-esposa, e sim o primeiro, o segundo, o terceiro, etc. No caso dos pais, estes serão sempre “maiores” do que os filhos, uma vez que eles “deram” o maior bem que os filhos possuem, que é a vida. O sistema novo, por exemplo o casamento atual, tem prioridade sobre o anterior e o membro do sistema anterior, no caso um filho do outro casamento, tem precedência sobre o sistema atual. Entre outros exemplos. Como podemos ver, a ordem possibilita o fluxo harmonioso das relações. Por outro lado, quando um filho sai do seu papel e sente ou se coloca no papel dos pais, conflitos e sofrimentos aparecem para sinalizar a desordem.

O terceiro princípio sistêmico é o equilíbrio. O dar e o receber é o movimento que regula a necessidade de equilíbrio, e, muitas vezes, esse fluxo harmonioso se acaba quando uma pessoa se doa mais do que recebe do outro ou quando um não agradece o que recebeu do outro, ou quando um não reconhece a autoria do outro, etc. Existem vários exemplos que mostram esse desequilíbrio e, seja ele qual for e em qual geração se iniciou, seu reestabelecimento está na compensação ou reparação, consciente ou não, do fato que provocou o desequilíbrio e, principalmente, a aceitação e o conforto de ambas as partes. Muitas vezes, não basta o sentimento para se chegar nessa harmonia, nesse caso, se faz necessário uma justiça reparativa. O importante é o reestabelecimento do equilíbrio perdido e a leveza da relação. Essa postura final é um substituto para a verdadeira culpa, a raiva ou a injustiça provocada pela perda do equilíbrio.

Algumas vezes, a leveza na consciência é confundida como sinal de justiça ou garantia da “melhor escolha”.

A justiça, à luz das Constelações Sistêmicas, está além da “pequena” consciência pessoal que é usada como um juiz interno para avaliar os atos em comum-unidade e mostrar o resultado desse julgamento interno através do seu peso. Emoções provenientes do que achamos certo ou errado, bom ou mal, são tão enganosas quanto perigosas. Hellinger descobriu que, inconscientemente, as pessoas seguem padrões de sofrimento por várias gerações e mesmo assim, sentem-se leves por ser igual ao sistema de origem. Muitas vezes o peso, se dá pela escolha de não repetir um destino e construir um futuro diferente.

Vivemos uma triste realidade de histórias familiares repetidas e sofridas. No contexto social, também estamos vivendo um ciclo vicioso de sofrimento. Do que adianta ir rápido se o caminho está errado?  De que adianta o avanço tecnológico, se o propósito e os princípios humanos essenciais e universais não forem seguidos? Estamos repetindo os erros do passado, e a verdadeira justiça é apenas um personagem raro da nossa história e continuará assim enquanto as pessoas insistirem em separar em partes o que é único e simplificar o que é complexo.

De acordo com Michel Sandel, autor do livro: Justiça: o que é fazer a coisa certa? e referência em justiça e professor de filosofia política da Universidade da Harvard: “se uma sociedade justa requer um forte sentimento de comunidade, ela precisa encontrar uma forma de incutir nos cidadãos uma preocupação com o todo, uma dedicação ao bem comum. Ela não pode ser indiferente às atitudes e disposições, aos “hábitos do coração” que os cidadãos levam para a vida pública, mas precisa encontrar meios de afastar das noções de boa vida puramente egoístas e cultivar a virtude cívica.”

Quantas vezes, a justiça dos homens, à luz da ciência do direito decidiu quem tem o direito de pertencer ou ter a posse de alguém? Quantas vezes excluiu outros, em detrimentos de alguns?

Sami Storch, é uma exceção na maioria, juiz de direito que aplica os princípios e as técnicas da Constelação Sistêmica Familiar, tem provado seus benefícios na área judiciária desde 2006. No Congresso de Constelação Sistêmica realizado em São Paulo em 2015, ele relatou que conseguiu 100% de acordo no direito de família, quando pai e mãe participavam do seu workshop e 80% quando só a mãe ou só o pai participava. Também contou sobre os baixos índices de reincidência criminal no caso de adolescentes infratores que participaram do seu trabalho e relata que apenas 30% voltaram ao crime, sendo que a estatística é de 80%.

Através da Constelação Sistêmica, Hellinger nos mostrou que existem princípios muito maiores que os que vem sendo utilizados atualmente, não só no judiciário, mas na psicologia, pedagogia, organizacional e em outras áreas, e que nos orientar por esses princípios nos traria mais cura, harmonia e paz. Nos mostrou que precisamos ampliar nossa pequena consciência, do nosso mundo umbilical, para uma consciência maior – passaporte para um mundo maior e, quem sabe, melhor. Nos mostrou também que para se ter justiça é preciso ampliar nossa visão para uma abordagem mais sistêmica, fenomenológica e complexa. Justiça está além do equilíbrio entre o dar e receber, para a Constelação Sistêmica, a pertinência e a ordem também são elementos norteados da justiça sistêmica que busca também a ordem, a harmonia e o amor para um bem comum muito maior do que a família nuclear: a família planetária.

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